Esse post foi escrito por um amigo que fiz recentemente, através do Merenda – que já pintou por aqui nos vídeos da trip EUA de Costa a Costa. O cara em questão é o fotógrafo Gustavo Priebe, que fez uma trip irada pela Nova Zelândia e nesse post vai contar como é a Tongariro Alpine Crossing, uma travessia muito maneira na região central da Ilha Norte.

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Tongariro Alpine Crossing

Em National Park o dia começou pouco promissor. Acordamos cedo e uma chuva muito fina acompanhava o vento e o frio, que estavam presentes desde a noite anterior.

Havíamos acampado nos fundos de um hostel que, assim como muitos na Nova Zelândia, possui uma área para camping. O YHA National Park Backpackers (15 NZD por dia, por pessoa) oferece uma espaçosa cozinha, bem equipada, banheiros limpos, lavanderia, sala de TV e estacionamento. Há ainda uma bela parede de escalada, como há muito tempo não via.

Nosso transporte para o início da trilha chegaria em alguns minutos, equipamentos na mochila, baterias carregadas e o espírito aventureiro já se preparava para um dia molhado e frio. Partimos.

Neste momento o que mais me preocupava era a possibilidade de o clima não permitir que tivéssemos um bom visual da trilha, ou pior, a possiblidade de fechamento da mesma devido ao mau tempo, o que é muito comum durante a primavera.

Nosso transporte chegou na hora marcada, as 7h15 da manhã. Era um ônibus antigo, assim como o seu motorista. O transporte fora agendado na tarde anterior, diretamente no hostel. Foram cerca de 45 minutos até a entrada da trilha, no final da Mangatepopo Valley Road, que fica a aproximadamente 16 km do hostel. Após algumas informações básicas e dicas passadas pelo simpático motorista, que nos alertou sobre as mudanças bruscas de temperatura, opções de trilhas alternativas e tempo médio para a travessia, ele estabeleceu o horário para que todos estivessem do outro lado, 15h40. Às 8 da manhã chegamos ao tão esperado início da trilha.

Um Homem Precisa Viajar - Nova Zelândia - Ilha Norte - Tongariro Alpine Crossing
Pousada YHA National Backpackers

 

Pés nos chão e mochila nas costas, últimos ajustes, primeiras fotos e partimos! O clima pouco promissor permanecia, neblina muito baixa e espessa, acompanhada de algum vento e chuvisco, mas eu nunca me assustei com isto…

A trilha, com seus extensos 19,4 km sobre terreno vulcânico acidentado, é considerada por muitos como a melhor trilha com duração de um dia, existente naquele país. A rota preferencial é aquela que começa exatamente no estacionamento onde deixamos o velho ônibus, o Mangatepopo Carpark (1100 m), seguindo um gradiente suave até Soda Springs. No pequeno abrigo de uma parede, único local protegido na área, uma dúzia de outros trampers se preparavam para começar a caminhada que, em media, é feita em 7 horas (embora ao final tenha ficado com outra impressão!).

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Mapa da região
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Perfil topográfico da travessia

 

Iniciamos a caminhada em direção a Magatepopo Hut (1100 m) e ao Soda Springs (1400 m). A trilha segue um pequeno vale, e, em alguns pontos, existem plataformas elevadas de madeira que nos mantém na trilha e protegem a sensível vegetação da região.

O tempo continuava muito fechado e chuvoso, mas havia uma pontinha de esperança deixada pelo sábio motorista do antigo ônibus: “o tempo não está muito bom, mas acima de Soda Springs pode ser que melhore”. E aí residia minha esperança.

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Caminhada de Mangatepopo até Soda Springs

 

A trilha segue por cerca de duas horas serpenteando o vale e ganhando altitude até a base de uma encosta onde um par de banheiros se destacam: Soda Springs. Dali pode-se ver o que nos espera: centenas de lances de escada, conhecidos como Devil’s Staircase, que indicam o rumo a seguir, para o alto!

Conforme subíamos, o clima parecia começar a melhorar (o motora parecia estar certo!). Os momentos em que o clima alpino dava uma trégua ficavam mais constantes, e, pela primeira vez, pudemos ter uma bela visão do vulcão Mt. Ngauruhoe, que havia nos acompanhado discretamente a direita do vale o tempo todo. Neste ponto pode­-se fazer uma das side trips até o seu cume, retornando depois a travessia.

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Vista da Base do Vulcão Mt. Ngauruhoe

 

Seguimos para o alto e, ao final da penosa subida, alcançamos outro grande vale formado durante uma das muitas erupções do vulcão Tongariro. Neste momento a sensação era de que estavámos seguindo em direção ao nada, já que a neblina ficara realmente forte.

Segundo o mapa, em algum momento acharíamos a South Crater a nossa direita, antes de atingirmos a subida para a crista que liga o Mt. Tongariro ao Mt. Ngauruhoe. A neblina ia e vinha como se brincasse com a nossa imaginação, tornando a caminhada neste ponto em uma degustação de paisagens.

Chegamos ao final do vale, e a encosta da crista começava a surgir no horizonte. A direita estava a South Crater, no nível do vale (1400 m). Uma bifurcação surgia na trilha, levando até a beira da cratera, mas, como a neblina ainda atrapalhava, resolvemos seguir e torcer para que tivéssemos uma boa vista da cratera sul do alto. Continuamos caminhando, seguindo os vultos por vezes fantasmagóricos a nossa frente…

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O vale nebuloso até a South Crater
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Vultos
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A crista a South Crater em amarelo claro e o monte Ngauruhoe

 

Enjoy the flat, as it won’t last forever” foram as palavras de um senhor de idade avançada que lentamente progredia. E ele tinha razão: dali pra frente, a subida – ou a descida – seriam uma constante. Chegávamos a parte mais complicada da trilha, uma subida íngreme de 1 hora em terreno vulcânico, exposta e curta até o topo da crista que nos levaria até a Red Crater, próximo destino.

Com o vento e a altitude aumentando, a neblina ficou para trás e as nuvens cada vez mais distantes. Ao atingirmos o topo o dia parecia outro! Céu azul, sol, visibilidade infinita, finalmente uma trégua! Dali podíamos ver todo o vale, a South Crater e o Mt. Ngauruhoe, de um lado e de outro um horizonte se fim. Coisa de louco! Aqui o vento se fez presente, e suas rajadas congelantes disputavam a nossa atenção com a paisagem magnífica diante de nós. Algumas fotos, mais uma olhada pra gravar bem, e seguimos subindo, agora acompanhando a crista que nos levaria até a borda da Red Crater, uma imensa cratera avermelhada e por vezes fumegante, formada há aproximadamente 3000 anos.

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Emerald Lake e o vale da cratera central a esquerda

 

Chegamos até a borda, e após momentos de pura emoção com a linda paisagem, fizemos um rápido lanche! Sentados ao lado de uma pedra à beira do vulcão, comemos e observamos as pessoas que seguiam pela trilha.

Por ser uma das trilhas mais famosas e procuradas da Nova Zelândia, o fluxo de pessoas é grande. Pessoas de todos os lugares do planeta, em grupos grandes ou pequenos, casais de idosos, malucos de montanha e toda a sorte de diferentes tipos passam por lá todos os dias, tornando as vezes quase impossível uma foto sem “interferência”. Mas, nem tudo pode ser como gostaríamos. Após o lanche seguimos o nosso caminho.

A trilha segue pela borda da cratera vermelha e ali pode-­se optar pela segunda side trip, que leva até o cume do Mt. Tongariro (se neste ponto você ainda tiver cerca de 1h30 para ir e voltar do cume). Nosso tempo estava apertado, pelos nossos cálculos, caso optássemos pelo cume teríamos que acelerar muito o passo para chegar a tempo de pegar o ônibus. Optamos por seguir direta e tranquilamente. Após mais alguns metros de subida alcançávamos o ponto culminante da travessia, a parte alta da borda da cratera com 1886 m de altitude.

Neste ponto a visão é deslumbrante! Os Emerald Lakes com todos os seus tons de verde contrastam com o marrom do vale, onde um dia foi a cratera central do Tongariro, e o céu de um azul intenso.

Começamos a descida com cautela, em meio a turistas desajeitados lutando para permanecerem em pé. Uma queda ali seria bem traumática eu diria, e a medida que nos aproximávamos dos lagos sulfurosos, rajadas de vento começavam a trazer o forte cheiro de enxofre.

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Vale da Cratera Central

 

A forte descida até a margem dos lagos foi ate mais tranquila do que me pareceu inicialmente, e chegamos sem maiores problemas. Nas margens dos Emerald Lakes eu me separei do grupo para fazer algumas fotos. Eu fiquei por ali por alguns minutos e meus amigos seguiram na frente. Mentalmente, sem nenhuma palavra, estava certo que o próximo ponto de encontro seria em Ketetahi Hut, o próximo abrigo na trilha bem abaixo, do outro lado da montanha.

Terminada a sessão de fotos, voltei para a trilha que seguia pela borda de um antigo derrame vulcânico da Red Crater que soterrou a mais antiga ainda cratera central do vulcão. Segui em direção a uma colina que me pareceu ser a borda oposta a que acabáramos de descer. O marrom, o preto e o branco preenchiam a paleta neste ponto da trilha.

Rodeado por colinas que representam as antigas bordas de uma cratera, caminha­-se por algum tempo com a visão de um mundo que não parece ser o nosso.

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Do outro lado do vale ao olhar para trás, a cratera central e a descida desde a Red Crater

 

Ali, no meio da cratera central, percebi que o tempo para a travessia começava a ficar curto. Como não sabia o que esperar dali para frente e nem quanto tempo a paisagem estonteante ainda me tomaria, resolvi apertar o passo e chegar o quanto antes ao topo da colina a minha frente. Depois de mais alguns minutos lá estava eu no topo da colina e logo a minha frente outro lindo lago verde kriptonita: o Blue Lake (1800 m). Sagrado para os Maoris, comer ou beber qualquer coisa as suas margens é considerado profundamente desrespeitoso. Dali, olhando para trás, tive uma linda visão da Red Crater lá no alto com seu vermelho intenso.

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O Sagrado Blue Lake
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Red Crater desde sua borda
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Descida da Red Crater

 

A trilha seguia pela esquerda, margeando o Blue Lake. Após mais uma curta subida cheguei ao ponto de onde pode­-se ver o outro lado da travessia: o céu encontra o mar no horizonte e deste ponto já é possível ver a linha das árvores algumas horas abaixo. O próximo abrigo não devia estar longe.

Deste ponto em diante, a paisagem foi ficando mais monótona e as horas de caminhada começaram a pesar. Segui serpenteando montanha abaixo, já com o abrigo ao alcance dos olhos (o que não significa muito quando você está em um zigue­-zague onde a cada curva você cruza pela pessoa que vem logo atrás, ah, e o vento, ele tinha voltado e era bem gelado!).

Para um lado vento na cara, para o outro vento nas costas… Mais algumas curvas e estava lá, Ketetahi Hut (1400 m). Parar seria perder tempo, algo que já não era abundante. Me juntei ao grupo que esperava por mim conforme o que foi mentalmente combinado, e seguimos.

O próximo trecho é basicamente uma longa descida pela encosta da montanha sem maiores dificuldades. Ao atingir a linha das árvores, pássaros começaram a aparecer e a sombra foi muito bem vinda. Mais duas horas de caminhada e chegávamos ao ponto de encontro: Ketetahi Carpark. Era 15h50, ainda tínhamos 10 minutos para sentar e aguardar o nosso ônibus! Estávamos todos exaustos, com dores nos pés e nas costas, após o intenso dia de caminhada. Foi uma experiência única, espetacular! E uma ótima preparação para uma aventura ainda mais intensa, que viria a seguir… Routeburn Track nas Fiordlands, Ilha Sul.

Texto e fotos: Gustavo Priebe

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