Nossos novos amigos da Hosteria Aguaribay indicaram ir para Mendoza passando por Los Tuneles del Poncho e pela Quebrada de La Mermelada – segundo eles, lugares muito mais bonitos e com melhor acesso que o Pampa de Las Salinas, nossa idéia inicial.

Também conhecidos como os Cinco Túneis de Taninga, esse caminho foi construído por volta de 1930 para ligar a Província de Córdoba a de La Rioja, atravessando a Sierra de Guasapampa e aproveitando o lindo visual do Valle del Pocho.

Antes de nos despedirmos, porém, uma pequena discussão a cerca do caminho… O dono da hosteria disse que teríamos que voltar a partir do último túnel devido às condições ruins da estrada daquele ponto em diante! Já sua esposa assegurou que poderíamos seguir em frente sem preocupação, pois o caminho – de terra batida – tinha sido reformado recentemente. Além do mais, cortaríamos boa parte do percurso para Mendoza por ali. Ligaram então para a secretaria de turismo, que confirmou a segunda opção. Um tempo depois, constatamos duramente que essa foi a pior escolha!

Saindo de Mina Clavero em direção ao norte, pegamos 50 km de bom asfalto pela Ruta 15 até o lugarejo de Taninga, onde começa a estrada para Los Tuneles. Essa é a Ruta Provincial 28, que leva à cidade riojana Chepes – ponto jogado no GPS como referência para atravessar o vale. Estávamos entrando na região de que abriga o Parque Natural e Reserva Florestal Provincial Chancaní.

Alguns minutos na estrada de terra quando deparamos com uma cena inusitada no meio do nada: um casal vendendo produtos em conserva, um burrico enfeitado ao lado da barraca e um monte solitário ao fundo!?! Paramos ali para perguntar se estávamos na direção certa. O simpático senhorzinho deu orientações sobre a estrada e indicou onde poderíamos almoçar na volta do passeio. Cabe uma observação aqui! Lembra que o cara lá do hotel indicou ir até o final dos túneis e voltar pelo mesmo caminho? Pois é… Normalmente, as pessoas que vão visitar o Camino de Los Tuneles encomendam seu almoço em uma das casas à beira da estrada – os comedores. Enquanto a comida fica pronta, os visitantes seguem até a Quebrada de la Mermelada e depois voltam para comer o que combinaram. Mas esse, infelizmente não seria o nosso trajeto…

Voltando ao tiozinho, ele ofereceu montarmos na mulinha enfeitada para tirar umas fotos tendo a solitária montanha como cenário. Algo estrategicamente preparado para turistas. Tiramos as fotos sem montar no bichinho. Soubemos ainda que o monte em forma cônica era um dos cinco Vulcões (inativos) de Pocho, que apresentam diferentes tons conforme o tipo de formação rochosa. São eles Agua de la Cumbre, Ciénaga, Poca, Yerba Buena e Véliz.

No final daquela parada, o senhorzinho nos deu algumas azeitonas para evitar o enjoo nas inúmeras curvas que nos aguardavam pela frente. Daí veio a primeira surpresa agradável desse passeio: foram as melhores azeitonas que comemos na vida! Incrivelmente suculentas! Compramos um pote grande para comer no caminho e nos arrependemos amargamente de não ter levado o estoque todo… Não encontraríamos outras iguais em lugar algum da Argentina (e do mundo, pelo menos até então)!

Ao longo da reta de 20 km até Las Palmas, encontramos muitas outras pessoas que, assim como aquele casal, ofereciam compotas, almoços e conservas diversas. Nesse povoado, há a pitoresca Capela de Nossa Senhora de Las Palmas. Construída em 1700, ela está logo na beira da estrada e mantém as paredes em adobe, a torre e os sinos originais. É considerada uma atração do local. Daí em diante, começa a sinuosa subida da serra. São cerca de 26 km de caracoles até o final da descida. Fomos parando em alguns pontos para admirar as curvas da estrada cortando o vale…

Mulinha e o vulcão
Mulinha e o vulcão
Capela de Nossa Senhora de Las Palmas
Capela de Nossa Senhora de Las Palmas

 

Lá no topo, é possível ver ao longe a imensidão das planícies de Rioja. A estrada então desce de forma mais acentuada e os antigos túneis vão surgindo, um por um, pelo caminho. Há alguns mirantes entre eles, como o Mirador El Artesano, de onde é possível a melhor vista dos 12 saltos da cachoeira Véu de Noiva e de sua maior queda – 180 metros. O silêncio e a paz do local permitem até ouvir o murmúrio das águas caindo… Aquele ponto é conhecido como Quebrada de la Mermelada, onde o vale é atravessado pelo rio de mesmo nome.

Passando os cinco túneis, a serra vai dando lugar a grande planície riojana que também faz parte da Reserva Chancaní. As curvas da descida são mais fechadas e muito lindas de ver assim: do alto. Placas ao longo do caminho indicavam as formações rochosas presentes no parque. E para êxtase total do passeio, na última parada para admirar a paisagem, fomos surpreendidos por um casal de condores sobrevoando nossas cabeças! Imponentes, porém tão rápidos que, mesmo voando em círculos, ficou difícil fotografá-los. Uma pena! A imagem vai ficar para sempre na memória…

A planície infinita...
A planície infinita…
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Um pouco da montanha com a estrada e a planície ao fundo
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Mais uma da planície
O condor
O condor
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Os raios solares dando ainda mais beleza ao visual

 

Final da descida. Estávamos empolgados com tanta beleza! Nem imaginávamos que o passeio seria tão legal, como também não fazíamos ideia do que nos aguardava ainda… Bom, a serra ficou para trás e o GPS apontou 107 Km até Chepes. À nossa frente, uma reta a perder de vista! Seriam mais 80 e poucos quilômetros até o asfalto, no cruzamento da ruta provincial com a estrada Nacional 79. Um caminho de terra batida que se mostrou tranquilamente trafegável no início. Na verdade, porém, esse era apenas um pequeno trecho do percurso…

O que veio a seguir daria um episódio do “Sobrevivi” no Discovery: imagine um casal feliz, naquele início de tarde num domingo ensolarado. Ambos ainda muito surpresos por um passeio tão lindo e inesperado, guiando tranquilamente seu carrinho numa estrada de terra no meio do parque até que… O caminho transformou-se em um torneio de obstáculos, com camas de areia, buracos que pareciam falésias e esteiras de pedras soltas! E isso durante os próximos 60 e muitos quilômetros…

O Clio 1.2 deslizava, pulava, tremia. Parecia que ia desmontar. E a coisa só ia piorando! Desviamos pela parte que parecia melhorzinha, mas chegou um ponto que era impossível seguir. Ao lado da estrada principal havia um caminho paralelo, onde duas marcas de pneu eram separadas por uma linha de pequenos arbustos. Pareceu a única opção naquele momento! Era um arranhar de galhos sob o carro, solavancos, batidas secas em buracos… Não me lembro de ter passado por estrada tão ruim, nem mesmo no Brasil! Aliás, aquilo ali podia ser considerado uma estrada??? Tinha trechos que nem um veiculo 4 x 4 atravessaria com facilidade…

E a gente continuou ali, na esperança que era só aquele trecho e depois ia melhorar. Ledo engano! A paisagem árida com vegetação seca, pouquíssimas árvores e nenhum sinal de vida – um deserto! Não havia nem ao menos onde pedir socorro em caso de pane. Momentos de pânico e muita reza… Até que começaram a surgir alguns casebres de sapê acompanhados de carcaças de veículos e cercados mal feitos que lembravam chiqueiros e galinheiros. Pareciam acampamentos abandonados no meio do nada. Assustador! Pedir ajuda ali? Nem pensar! Vai que sai um bando de zumbis querendo comer nosso cérebro… Por um momento, ocorreu que aquela estrada talvez se justificasse ali, num paradoxo cheio de sentido: ligava as pobres pessoas daqueles casebres a algum lugar habitável e ajudava a isolar seus horrendos arremedos de chácara do resto do planeta.

Estávamos pagando nossos pecados nos piores quilômetros de nossas vidas até que começamos a cruzar com outros carros vindos da direção oposta. Isso nos acalmou um pouco. Caminhonete, veículo de passeio, calhambeque caindo aos pedaços… Calma aí! Se até ele conseguia chegar ali, então ainda havia esperança de alcançar a civilização seguindo em frente. Era verdade! Foram ao todo 84 km de sufoco até chegar ao sonhado asfalto, onde a ruta provincial vira a Ruta Nacional 141… Vontade de sair do carro e beijar o chão como o Papa João Paulo! Sobrevivemos, nós e o Clio 1.2, sem se quer um misero pneu furado! Apenas um forte barulho dos galhos grudados sob o carrinho se arrastando pelo asfalto. Chegamos ao final dessa aventura com a sensação de que estávamos aptos a encarar um rally em qualquer lugar do mundo. Quem gostou, pode nos patrocinar… Hahaha!

Seguimos a Ruta 141 em direção a San Juan para chegarmos até Mendoza. Agora estávamos a salvo…

A montanha ficando pra trás e o início da estrada
A montanha ficando pra trás e o início da estrada bizarra
Reta infinita
Reta infinita
O Cliozinho guerreiro
O Cliozinho guerreiro
O bonito fim de tarde depois do perrengue
O bonito fim de tarde depois do perrengue

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